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As consequências da saída de Moro do governo

Saída do ministro da Justiça, Sérgio Moro do governo Bolsonaro.

25/04/2020 às 14h20
Por: Carlos Oliveira
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As consequências da saída de Moro do governo

24/04/2020 foi, de longe, o dia mais turbulento e infeliz para o governo Bolsonaro. O mandatário foi eleito com o discurso, dentre outros, de combate à corrupção, e o uso da moralidade na vida pública, por exemplo indicando ministros somente com critérios técnicos. Essa promessa eleitoral parecia, até essa apocalíptica sexta-feira, ser uma realidade no governo.  Porém, o pedido de demissão e as denúncias feitas pelo ex-juiz Sergio Moro parece, a princípio, ter colocado em xeque tal aspiração.

Moro, o juiz que colocou parte da Cleptocracia brasileira na cadeia - foi indicado em 2016 como sendo a 13ª pessoa mais influente do mundo - e novamente no ano passado voltou a figurar entre as cinquenta pessoas mais influentes do planeta - desde sempre é o brasileiro mais bem avaliados em todas as pesquisas - é de longe o maior símbolo da justiça, da ética e de probidade da sociedade brasileira. Romper com ele, em tese, significa dar um ponta pé no combate à corrupção. Sem dúvida, foi o pior dos erros que o planalto poderia ter cometido e suas consequências são avassaladoras. Era tudo o que os adversários do governo (a Globo, a Folha e companhia, os corruptos e seus fiéis seguidores) queriam.  

Se Bolsonaro faltou com a legalidade, só o tempo e as investigações vão dizer. Mas uma coisa é certa, faltou-lhe compromisso com a própria palavra.

Ele, por iniciativa e interesse próprios, de fato, prometeu a Moro autonomia total no Ministério da Justiça, na PF e no Coaf. Só por isso, o ex-juiz topou deixar uma carreira ilibada na Justiça Federal, perto da aposentadoria, para tentar mudar de forma mais efetiva os rumos da nação brasileira. Quando as hienas do congresso pediram o Coaf, o presidente traiu Moro e quebrou sua palavra pela primeira vez. Quando o congresso esfacelou o projeto anticrime de Moro e Bolsonaro nada fez, traiu-o novamente. E no início deste ano, quando os corruptos pediram para tirar dele o Ministério da Justiça, o presidente só não os atendeu por causa da pressão popular. Isso fora as diversas vezes que ele tentou mudar a direção geral e superintendentes da PF sem indicar causa plausível, contrariando sua promessa ao juiz e seu lema de campanha “a verdade vos libertará”. Ele, nesse quesito, não cumpriu nem João 8:32 e nem o que disse Jesus em MT 5:37: “Seja, porém, o vosso falar: Simsim; não, não; porque o que passar disso é de procedência maligna. 

Antes de continuarmos, duas reflexões se fazem necessárias nesta hora. Primeira: o que adianta colocar pessoas técnicas nos ministérios e estatais se você não vai ouvi-las e nem as deixar trabalhar? Doutro modo, você só estará usando o prestígio dessa pessoa para proveito próprio. Segunda: é latente a hipocrisia daqueles que até pouco tempo tinham o ministro como inimigo número um, simplesmente por ele ter colocado vários ladrões e quadrilheiros na cadeia, (políticos corruptos de estimação de alguns) e agora posam de bons moços e se aproveitam da desgraça alheia para criticar aquilo que sempre fizeram, acobertaram ou defenderam nos governos anteriores.  Tomara que dessa vez aprendam que “pau que dá em Chico dá em Francisco"!     

Voltando ao raciocínio anterior, para entendermos o tamanho do estrago dessa demissão, segue uma breve análise das quatro bases de sustentação do governo federal.  

1ª Base religiosa: sem dúvida, os religiosos cristãos, sobretudo os evangélicos, ajudaram eleger, e mais ainda manter e apoiar o capitão Jair Messias Bolsonaro no poder. A bancada evangélica, uma das maiores da câmara com aproximadamente 100 parlamentares, dá apoio incondicional ao presidente devido sua aproximação com os temas cristãos como, por exemplo, o combate ao aborto. A promessa de transferir a embaixada de Israel para Jerusalém e a indicação de um ministro evangélico para o STF são outras promessas que atraíram os evangélicos. Vale lembrar que esse segmento, hoje, representa aproximadamente 30% da população, isto é, 60 milhões de brasileiros. Dentro desse segmento cristão haverá perdas consideráveis, sobretudo entre os católicos e os protestantes mais tradicionais. Porém, de forma geral, a grande massa desse contingente continuará com o presidente.  

2ª Base empresarial: neste segmento, o presidente teve e tem um grande apoio. No entanto, as consequências econômicas causadas pela pandemia, diante da falta de alinhamento do governo com o congresso, que há muito é acostumado com a política do toma lá dá cá, pode levar essa ala a pensar em um cenário mais promissor com o vice-presidente Amilton Mourão assumindo o comando do país. Vale lembrar que esta classe, com exceções, diferentemente dos religiosos, não tem uma bandeira ideológica para defender. Eles objetivam unicamente um ambiente econômico favorável para desenvolverem os seus negócios. Assim sendo, se a saída de Bolsonaro representar esse tal ambiente pró-economia, não hesitarão em defendê-la. Portanto, nessa parcela da base, o estrago pode ser ainda maior.

3ª Base militar: os agentes de segurança pública, de todas as esferas do país, ajudaram a eleger o presidente. E esse apoio não é pouco. Estima-se que haja no país pelo menos 2 milhões de vigilantes, 600 mil policiais e agentes e 4 milhões de soldados do exército (ativa e reserva). Multiplique isso por uma média de 3 pessoas por família e teremos 20 milhões de apoiadores. Nessa ala, a depender das provas que se apresentarem, os impactos serão sentidos principalmente no exército, (por estarem na linha de frente do governo) e serem uma instituição que goza de grande prestígio da população por representar o patriotismo, a ética e a moral. E justamente o que mais pesa nessa saída de Moro do governo é a tese de ‘rompimento do governo com o combate à corrupção’, tema caro ao Exército.

4º Base espólio da Lava Jato: por fim, e não menos importante, os simpatizantes do movimento pró Lava Jato, que para além de ideologias e interesses econômicos, almejam uma mudança visceral no sistema político brasileiro. Esse segmento talvez seja o mais atingido por esse rompimento precoce de Moro com o governo. Vale lembrar que este segmento apoiou Bolsonaro no segundo turno mais por falta de opção que por afinidade. Por outro lado, o ex-juiz de Curitiba tem, como ninguém, a simpatia desse expressivo seguimento. Eles depositaram em Bolsonaro a esperança de ver um modo de governar mais republicano, imparcial e ético. Por isso, assim como os militares, o tamanho desse estrago dependerá das provas e das implicações jurídicas que elas provocarão, porém com um agravante, eles não estão gozando do poder como os militares.  

OBS.: Essas quatro bases aqui elencadas são, na sua quase totalidade, compostas por pessoas que se definem como de direita.  

Diante desses fatos, só resta esperar para ver até que ponto as provas que o ex-ministro Moro tem para comprovar as ingerências de Bolsonaro no comando da PF vão abrir brecha jurídica para um processo de Impeachment. Ah! E também do quanto a oposição topará trocar Bolsonaro por Mourão... e também do quanto o capitão Bolsonaro está disposto a negociar cargos e emendas parlamentares com os senhores feudais do congresso (as hienas que há anos acuam os leões para se deliciarem dos banquetes) para manter-se ou postergar sua saída do cargo. Seguindo este último caminho, dará cada vez mais razão ao ex-juiz de Curitiba e afastará ainda mais os apoiadores que prezam pela ética pública.          

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