SÃO PAULO — O banqueiro Daniel Vorcaro, 42 anos, dono do Banco Master, foi preso preventivamente pela terceira vez na manhã desta quarta-feira (4), em São Paulo, durante a deflagração da 3ª fase da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal. A ação, que mira um esquema bilionário de fraudes financeiras, também resultou no bloqueio judicial de R$ 22 bilhões em bens do grupo investigado.
A nova detenção de Vorcaro ocorre em meio a uma contradição jurídica que expõe os bastidores tensos de Brasília. A ordem de prisão preventiva foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). O fato chama a atenção porque, apenas 24 horas antes, na terça-feira (3), o mesmo magistrado havia concedido um habeas corpus desobrigando o banqueiro de comparecer à CPI do Crime Organizado, no Congresso Nacional.
Enquanto os senadores aguardavam frustrados a ausência de Vorcaro na comissão parlamentar, agentes da Polícia Federal cumpriam, desde as primeiras horas da manhã de hoje, quatro mandados de prisão preventiva e 15 mandados de busca e apreensão nos estados de São Paulo e Minas Gerais.
A operação de hoje marca o capítulo mais agressivo da investigação até o momento. Além das prisões, o sequestro de R$ 22 bilhões visa garantir o ressarcimento de parte do rombo financeiro deixado pelo Banco Master, estimado agora em R$ 47,3 bilhões — o maior colapso bancário da história do Brasil.
Nesta terceira etapa, a Operação Compliance Zero expandiu significativamente o escopo das investigações. Segundo fontes ligadas à Polícia Federal, o inquérito não se restringe mais apenas às fraudes financeiras com títulos de crédito. Vorcaro e seus associados agora respondem por novos crimes: ameaça, corrupção ativa, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos.
A sofisticação da organização criminosa, segundo a PF, envolvia o uso de hackers para acessar dados sigilosos e coagir testemunhas e autoridades. "Não estamos lidando apenas com crimes de colarinho branco tradicionais, mas com uma estrutura que opera táticas de intimidação típicas de organizações violentas", afirmou um delegado da PF sob condição de anonimato.
Outro alvo de destaque nesta fase foi Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e pastor da Igreja Batista da Lagoinha. Zettel foi preso em Belo Horizonte. Ele já havia sido detido brevemente na segunda fase da operação, em janeiro, ao tentar fugir do país. O pastor ganhou notoriedade política em 2022, quando doou R$ 3 milhões para a campanha de reeleição do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A saga de prisões começou de forma cinematográfica. Às 22h, Daniel Vorcaro foi detido pela PF na área do raio-X do Aeroporto Internacional de Guarulhos. Ele tentava embarcar em um jatinho particular rumo a Dubai. Naquela mesma noite, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Banco Master, revelando uma fraude inicial de R$ 12 bilhões em títulos falsos.
Após 12 dias detido, Vorcaro foi solto por decisão do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). Ele deixou a carceragem usando tornozeleira eletrônica e com o passaporte retido, sob a condição de não manter contato com outros investigados.
A PF deflagrou a segunda etapa da operação, cumprindo 42 mandados de busca e apreensão. Foi nesta data que Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, foi preso pela primeira vez, também tentando fugir para Dubai. A justiça bloqueou R$ 5,7 bilhões em bens.
Vorcaro é preso novamente, agora sob a acusação de novos crimes e obstrução de justiça. O bloqueio de bens salta para R$ 22 bilhões, numa tentativa desesperada das autoridades de recuperar ativos antes que desapareçam em paraísos fiscais.
O colapso do Banco Master não foi fruto de má gestão, mas de uma engenharia financeira fraudulenta deliberada. Segundo as investigações, a instituição emitia Certificados de Depósito Bancário (CDBs) falsos, prometendo rendimentos irreais de até 40% acima da taxa básica de mercado.
Esses títulos, que não possuíam lastro real, eram empacotados e vendidos para fundos de pensão estatais e para o Banco de Brasília (BRB). Na prática, Vorcaro criou uma "pirâmide financeira institucionalizada", onde o dinheiro de novos investidores pagava os rendimentos exorbitantes dos antigos, enquanto bilhões eram desviados para patrimônio pessoal e contas no exterior.
Quando o Banco Central interveio e decretou a liquidação em novembro de 2025, a bolha estourou, expondo um buraco contábil que superou os escândalos do Banco Nacional e do PanAmericano.
O impacto do caso Daniel Vorcaro vai muito além da Faria Lima. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mecanismo que protege pequenos investidores, está diante de seu maior desafio. Para honrar os pagamentos de até R$ 250 mil por CPF aos 1,6 milhão de clientes lesados, o FGC precisará de um aporte extraordinário.
Estima-se que o fundo terá que adiantar pelo menos R$ 50 bilhões, obrigando grandes bancos brasileiros a realizarem chamadas de capital emergenciais. O Banco do Brasil, por exemplo, já anunciou que precisará desembolsar cerca de R$ 5 bilhões para recompor o sistema de garantias.
Outra vítima institucional é o Banco de Brasília (BRB). A instituição herdou um prejuízo bilionário fruto de negociações obscuras com o Master, o que colocou suas próprias operações em risco e acendeu o alerta nos órgãos de controle do Distrito Federal.
A prova material mais explosiva contra Daniel Vorcaro não estava em cofres, mas em seu bolso. O iPhone 17 apreendido pela PF durante a primeira prisão, em novembro de 2025, tornou-se a "caixa de pandora" da República.
Após quebrar a criptografia do aparelho, os peritos federais encontraram conversas comprometedoras que ligam o banqueiro às mais altas esferas do poder. O relatório da PF aponta mensagens diretas envolvendo o ministro Dias Toffoli, do STF, com registros de mais de 10 encontros presenciais entre os dois.
Além do judiciário, o celular revelou uma agenda de contatos que inclui a cúpula da Câmara dos Deputados, o senador Ciro Nogueira (PP) e Antonio Rueda, presidente do União Brasil. Essas conexões explicam, em parte, a dificuldade inicial que a CPI do Crime Organizado teve para convocar o banqueiro.
Aos 42 anos, o mineiro Daniel Vorcaro personificava o estereótipo do "novo rico" brasileiro. Filho de Henrique Vorcaro, fundador da construtora Multipar, Daniel formou-se em Economia pelo Ibmec-BH, mas foi no mercado financeiro especulativo que construiu sua fortuna relâmpago.
Sua vida pessoal era uma vitrine de ostentação. Ele ganhou as manchetes ao promover uma festa de 15 anos para a filha avaliada em R$ 15 milhões, com direito a show exclusivo do DJ Alok. Seu portfólio de luxo incluía uma mansão em Trancoso (BA) comprada por R$ 280 milhões — uma das residências mais caras do país — e participação societária no Hotel Fasano Itaim, em São Paulo.
Vorcaro também tentou ganhar popularidade no futebol, investindo R$ 200 milhões na SAF do Atlético Mineiro. Até sua prisão, ele mantinha um relacionamento público com a influenciadora digital Martha Graeff, frequentando os destinos mais exclusivos do verão europeu.
Com a terceira prisão decretada e novos crimes adicionados ao inquérito, a situação jurídica de Daniel Vorcaro se agrava drasticamente. Diferente da detenção anterior, a prisão preventiva atual não tem prazo definido para terminar.
Além das fraudes bancárias, a Polícia Federal abriu uma nova frente de investigação para apurar se a origem do capital que alavancou o Banco Master tem ligações com o Primeiro Comando da Capital (PCC), o que elevaria o caso à esfera de segurança nacional.
Paralelamente, o liquidante do Banco Master acionou a justiça norte-americana. Advogados buscam rastrear e bloquear até US$ 10 bilhões em ativos que Vorcaro teria ocultado na Flórida e em outros estados dos EUA.
CONCLUSÃO
A prisão de Daniel Vorcaro pela terceira vez em menos de quatro meses simboliza o colapso de um esquema que desafiou todas as regras de compliance do sistema financeiro nacional. Enquanto o banqueiro retorna à carceragem da Polícia Federal em São Paulo, o Brasil começa a contabilizar os prejuízos de uma fraude que custará caro não apenas aos investidores, mas à credibilidade das instituições que deveriam fiscalizá-lo.